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ALEMANHA
Concebido antes da guerra, em 1939 (Louis Lumière deveria ter sido o primeiro Presidente!), o Festival só pôde começar em 1946, consequência da mais desastrosa contribuição alemã para a História, sim, e também para o cinema. Depois, a cronologia dos filmes alemães na Croisette é tão variada quanto o próprio cinema alemão do pós-guerra. Há autores e obras publicadas e aqueles de quem nos recordamos com surpresa ou com alegria. (E peço desde já desculpas a todos os que não aparecem no meu percurso dos anais do festival)
O único alemão presente no primeiro ano, em 1946, era um exilado: Billy Wilder com “The Lost Weekend”. Como gostaria de rever ou redescobrir esta selecção! Alfred Hitchcock, Roberto Rosselini, David Lean, George Cukor, Charles Vidor, René Clément, Jean Cocteau (com “A Bela e o Monstro”!), entre outros. Perguntamo-nos de que forma sentiram esta estreia mundial, este festival desconhecido na Côte d’Azur que ainda não tinha qualquer tradição. Nós temos sempre toda a história de Cannes na cabeça. É estranho imaginá-la como uma invenção…
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| Unter den Brücken, Helmut Käutner, 1944 |
Um filme alemão que poderia ter sido mostrado nesta primeira vez foi rodado em 1944, nos arredores de Berlim, por Helmut Kaütner. “Unter den Brücken” foi apresentado em Locarno como estreia mundial durante o ano de 1946. É um pequeno milagre, esta história de Amor entre uma mulher e dois homens, o meu filme preferido em todo este período de pós-guerra. A rodagem ocorreu no momento em que Berlim e Potsdam estavam a ser bombardeadas pelos aliados e este filme é completamente feito sob o controlo dos Nazis. A ausência da guerra não é uma forma de recalcamento, é mais uma utopia. Este filme é um hino à paz, como há poucos no cinema.
Este mesmo Helmut Kaütner, largamente esquecido pela história do cinema, é ainda assim o primeiro representante alemão em Cannes um pouco mais tarde, com “Der Apfel ist ab” em 1949. (E volta em 1955 com “Ludwig II”). Este ano de 1949 apresenta quatro filmes alemães em competição, espantosamente, com filmes (desaparecidos) de Josef von Báky (“Der Ruf”), Kurt Maetzig (“Die Buntkarierten”) e Hans Betram “Eine Grosse Liebe”. Ainda assim, uma verdadeira primeira “vaga alemã”…
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| Das Brot der Frühen Jahre, Herbert Vesely, 1962 |
O cinema alemão dos anos 50 e 60 é representado por autores como Staudte (“Rose Bernd” em 1957 e “Der letzte Zeuge” em 1961), Kurt Hoffmann (1958) (com um filme muito comercial como “Das Spukschloss im Spessart”) Herbert Vesely (com o importante “Das Brot der Frühen Jahre” em 1962) Franz Peter Wirth com “Helden” em 1959, Harald Braun duas vezes com “Herz der Welt” em 1952 e “Solange Du da bist” em 1954. Michael Pfleghar mostra em 1964 “Die Tote von Beverly Hills”. Bernard Wicki vem em 1964 com “The Visit” e uma vez mais no final da sua carreira, em 1989, com “Das Spinnennetz”. (Desempenha o papel de um médico amaldiçoado no meu “Paris, Texas”…)
A minha geração, o suposto “Novo Cinema alemão” tinha muito pouco contacto com estes cineastas. Poderiam ter sido nossos pais, mas não os procurámos nem aceitámos. Tentámos procurar mais longe na história para encontrarmos os avôs, Fritz Lang e Friedrich Wilhelm Murnau. Ou os americanos…
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| Métropolis, Fritz Lang, 1927 |
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| L'Aurore, Friedrich Wilhelm Murnau, 1927 |
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| Volker Schlöndorff | Der Junge Törless, 1963 |
Os precursores de um outro cinema alemão vieram a Cannes no decorrer dos anos sessenta. (Entre “nós” e esta geração de cineastas, os limites são por vezes um pouco imprecisos…). Em primeiro lugar, Edgar Reitz, já em 1963, com a sua curta-metragem “Geschwindigkeit”. Depois Volker Schlöndorff em 1966 com o seu início estrondoso “Der junge Törless”! “Es” de Ulrich Schamoni é apresentado no mesmo ano e o filme do seu irmão Peter Schamoni “Die Widerrechtliche Ausübung der Astronomie” um ano depois, em 1967. Schlöndorff volta a partir desse ano com “Mord und Totschlag”, depois mostra “Michael Kohlhaas” em 1969 e ganha uma Palma de Ouro lendária em 1979 com “Die Blechtrommel”, ex aequo com “Apocalypse Now” de Francis Ford Coppola. “Malatesta” de Peter Lilienthal está em cartaz em 1970 e “Das Unheil” de Peter Fleischmann em 1972…
Die Blechtrommel, Volker Schlöndorff, Palme d'or 1979
E então é a nossa vez, um bando de cineastas sem pais, brevemente resumidos sob a etiqueta de “Novo Cinema Alemão”.
Em primeiro lugar Werner Herzog, Pela primeira vez em Cannes em 1970, mostra “Auch Zwerge haben Klein angefangen”. Volta frequentemente, com “Aguirrre” em 1973, “Kaspar Hauser” em 1975, “Woyzeck” em 1079, ganha o Prémio da Encenação em 1982 com o magnífico “Fitzcarraldo” e mostra “Where the Green Ants Dream” em 1984.
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| Fitzcarraldo, 1982 | Werner Herzog |
Faßbinder apôs a sua marca pela primeira vez em 1974 com “Angst essen Seele auf”. Volta em 1978 com “Despair” e em 1979 com “Die Dritte Generation”. Aparece como actor com Daniel Schmidt (“Schatten der Engel”) em 1976, bem como várias vezes na Semana da Crítica.
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| Die Dritte Generation, 1979 | Faßbinder |
Werner Schröter é apresentado várias vezes, em primeiro lugar na Quinzena, depois em competição com “Tag der Idioten” em 1982 e “Malina” em 1991.
Thomas Brasch mostra dois filmes em competição, “Engel aus Eisen” em 1981 e “Welcome to Germany” em 1988. E não esqueçamos outro filme da Alemanha de Leste passado em 1975, “Lotte in Wimar”, de Egon Günther.
Bernhard Sinkel apresenta “Kaltgestellt” na competição de 1980.
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| Tag der Idioten, 1982 | Werner Schröter |
E para falar de mim mesmo, se me permitirem, para completar o quadro: mostrei o meu primeiro filme em Cannes em 1976. “Im Lauf der Zeit“. Gilles Jacob perguntou-me, da parte do director do festival, Maurice Bessy, algumas horas antes da projecção, se não poderia renunciar a um momento do filme (bastante delicado, esta “defecação” vista de uma certa distância, concordei) mas esta famosa cena - quando Rüdiger Vogler faz cocó – foi tantas vezes retirada do filme durante a montagem que me fartei. Disse que não. Desejava fortemente viver aquele momento que no início era apenas uma espécie de aposta ou brincadeira entre eu e o meu actor…
Chegámos (após lutar com a polícia que não queria deixar-nos passar) com os actores em frente ao antigo Palácio, no velho camião que é o cenário principal do filme. O nosso primeiro tapete vermelho e ninguém nos leva a sério! Quem são estes jovens que saem de um camião?!
A minha primeira aparição em Cannes “recebeu” o Prémio da Crítica, ex aequo com Alexander Kluge, que apresentou “Der Starke Ferdinand” na Quinzena. Seguimos o nosso caminho através do labirinto do edifício para irmos buscar os nossos diplomas e quando saímos, finalmente, desenrolámos os pergaminhos, ao descermos as escadas, e desatámos a rir: os nossos nomes estavam mal escritos…
Isso não acontecerá uma segunda vez! Desde então, voltei mais de vinte vezes a Cannes, como encenador em competição e fora da competição, ou em Un Certain Regard, como produtor (com Peter Handke “La Femme Gauchère”, Claire Denis “Chocolat” ou Holger Ernst “The House is Burning”), e a minha Palma de Ouro em 1984 para “Paris, Texas” foi certamente um dos dias mais bonitos da minha vida, embora o meu maior prazer fosse no ano de 1989, quando Gilles Jacob me confiou a Presidência do Júri! Pelo menos dessa vez, pude ver todos os filmes, não tive de dar nenhuma entrevista e tinha o meu próprio motorista em permanência. Tínhamos conversas e reuniões todos os dias, inteligentes, animadas, apaixonantes. Esses dez dias em Cannes tornaram-se na minha memória num verdadeiro “paraíso cinematográfico”.

Faye Dunaway, Wim Wenders, Dirk Bogard - Paris, Texas, Palme d'or 1984 © AFP
É evidente que houve também tempos mais difíceis. Aí, nada poderá vencer a minha experiência com “End of Violence”, na competição de 1997, o ano do quinquagésimo aniversário do Festival. Gilles convencera-me a mostrar o meu filme na própria noite da grande festa de aniversário. Todos os meus colegas encenadores que tinham ganho a Palma estavam presentes e tínhamo-nos colocado todos juntos numa longa fila no palco. E houve muitos discursos, claro, extractos e tudo! E após esta primeira parte já muito emocional, passámos então ao meu filme, diante de todos aqueles gigantes do cinema (sem contar que nesse momento, toda a gente está cansada e quer ir jantar!). Estava mais ansioso do que alguma vez estivera em toda a minha vida durante uma projecção. Acho que o filme é demasiado longo e está mal misturado (uma experiência que partilho certamente com muitos encenadores durante uma estreia mundial) e queria desaparecer na minha cadeira. E depois, inexplicavelmente, deixei de ver as legendas! Havia uma barra preta no lugar delas que desaparecia de uma forma estranha se olhasse ainda mais para baixo… Estava demasiado nervoso para levar a sério este efeito visual. No dia seguinte, a barra preta continuava lá, mas ainda maior. Foi inquietante. Fui consultar um oftalmologista em Cannes que me recomendou que fosse imediatamente a Paris para que me operassem de urgência de um descolamento da retina! A minha mulher meteu-me no carro e fizemos a viagem directamente, interrompida apenas para pôr gasolina, até Marburg na Alemanha, onde reside um grande oftalmologista que me conhece e que me operou no dia seguinte. Não foi demasiado tarde. Recuperei a minha visão completa no olho direito. Mas aqui fica o meu conselho a todos os meus amigos encenadores: não mostrem um filme a todos os encenadores e produtores do mundo inteiro ao mesmo tempo!
The End of Violence, Wim Wenders, Competição 1997
O “Novo Cinema Alemão” não pôde continuar “novo” para sempre. Toda uma outra geração de cineastas representa a Alemanha neste novo século. Jan Schütte começa em 2000 com “Abschied”, Max Färberböck continua com “Setembro” em 2003, Hans Weingartner mostra “Die fetten Jahre sind vorbei” em 2004, Angela Schanelec vem com “Marseille” em 2004 (e com “Plätze in Städten” em 1998,) Benjamin Heisenberg é convidado com “Schläfer” em 2005, Fatih Akim veio no mesmo ano com “Crossing the Bridge” (e é também membro do júri sob a presidência de Emir Kusturica) e com “Auf der anderen Seite” em 2007, quando Robert Thalheim é também convidado com “Am Ende kommen Touristen”. “Wolke 9” de Andreas Dresen passa em 2008. E a minha lista termina com “Unter dir die Stadt” de Christoph Hochhäuser em 2010…
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| Jan Schütte | Max Färberböck | Hans Weingartner | Angela Schanelec | Benjamin Heisenberg |
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| Fatih Akin, Prémio de argumentação 2007 De l'autre côté |
É evidente que o Cinema Alemão, com todas as suas facetas, deve muito ao Festival de Cannes, ainda que muitas pessoas tenham o hábito de deplorar uma “ausência dos Alemães” quase todos os anos. Bom, eu testemunho! Tive certamente relações privilegiadas com Cannes e estou reconhecido a Gilles Jacob pela sua presidência e presença simpáticas, competentes e discretas no cimo dos degraus, bem como, de há dez anos para cá, ao seu Delegado Feral, Thierry Frémaux, que carrega admiravelmente todo o peso da programação.
A história do Festival de Cannes, desde o seu início, é um espelho exemplar da história de cinema, incluindo a do Cinema Alemão.
Arrêt en pleine voie, Andreas Dresen, Prémio Un Certain Regard ex-aequo 2011
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Por Wim Wenders, realizador, produtor, argumentista de cinema e fotógrafo alemão.
O Festival de Cannes agradece aos autores pela sua livre contribuição.












































